jusbrasil.com.br
28 de Maio de 2022

Robôs Poderão Advogar em Breve?

Poderemos ser substituídos por robôs, que tal pensar sobre isso no dia do advogado?

Charles Machado, Advogado
Publicado por Charles Machado
há 10 meses

ROBÔS PODERÃO ADVOGAR?

Em pleno dia do advogado, essa certamente deveria ser uma das perguntas que muitos colegas deveriam estar formulando: “Eu posso ser substituído por um robô?

Na sociedade em que vivemos, a mortalidade e o obsoletismo são a regra, e logo objetos e pessoas, por mais doloroso que seja vão marcando uma trajetória por suas realizações e por sua imprescindibilidade na vida.

Logo converse com seus amigos e faça a eles a seguinte pergunta: Você acha que um robô pode lhe substituir?

Eu nem preciso estar por perto para saber que a maioria deles vai dizer que não….imagina…. se um robô vai conseguir fazer o que eu faço? Imagina se os meus clientes vão querer serem atendidos por um robô?

Sim, vão sim, se não hoje será muito em breve. Ufa pronto falei, confesso que estava receoso em lhe dar essa dura notícia.

Por certo ao ler esse artigo uma parte significativa continuará de forma incrédula imaginando que é apenas um exercício ficcional desse escriba. Não de forma alguma é a mais pura realidade, onde eu não preciso ser Nostradamus pra lhe dizer que quase tudo, “quase” que o homem faz pode ser feito e o será um dia feito por máquinas.

Quanto ao “quase” será tema de um próximo artigo, por hora quero lhe dizer que seremos substituídos por maquinas sim, por softwares sim, ou pelo simples fato do que fazemos não precisará mais de nós.

Pense no que acontece quando os robôs começam a enviar pessoas para o desemprego, e que antes de seu desenvolvimento viviam para dirigir um veículo, fazer hambúrgueres em um McDonalds ou mover pacotes em um armazém, e tente imaginar a transformação social que necessariamente terá que acontecer para gerar uma sociedade em que o trabalho tem um significado diferente, onde você trabalha sem dúvida menos e se move para valorizar mais outros tipos de ocupações e serviços. Um mundo onde só quem quer trabalhar e sente a necessidade de fazê-lo, em tarefas que realmente os motivam, e onde a identidade da pessoa é desfolhada do tipo de trabalho que faz, uma plena ressignificação da relação homem e trabalho.

A produtividade deve aumentar drasticamente com os robôs, mas apenas certos tipos de empregos devem ainda se manter, ainda que completamente redefinidos.

É fato de que o desenvolvimento de tecnologias relacionadas à robótica representa um paradoxo semelhante ao que deu origem à Internet na época da sua criação? Estamos diante de uma nova mudança drástica no conceito de sociedade, que altera muitas das regras que damos como essenciais em nossas vidas? Muito possivelmente sim. E que, além disso, está se aproximando a uma taxa muito mais rápida do que muitos acreditam.

A supremacia da máquina sobre o homem sobre um assunto como dirigir um veículo já é uma discussão completamente ultrapassada, e se você não pensa assim, é melhor ampliar seu horizonte de leituras.

Mas o que seria um robô advogado? Atualmente grandes escritórios já possuem um robô advogado, que é um dispositivo de inteligência artificial desenvolvido para executar atividades jurídicas de forma autônoma ou programada.

A maioria deles está programada para realizar tarefas de baixa complexidade, análise de grande volume de dados e até mesmo consultorias. A aplicação desse tipo de solução é ampla e pode atender tanto às necessidades de escritórios de advocacia como assistente em nosso judiciário.

Nas diversas experiências que já possuímos, eles são sempre programas que são adotados para trazer agilidade e eficiência a processos diários da área. Para isso, o mecanismo desempenha funções de suporte. Uma das atribuições possíveis é o apoio à pesquisa, o controle de prazos, a comunicação e atendimento aos clientes para comunicar as eventuais movimentações processuais ou produzir relatórios de processos.

Como sabemos em nossas rotinas o levantamento de casos, decisões e jurisprudências é uma atividade fundamental, e logo essa função exige tempo, o que pode simplesmente ser terceirizado para um robô (software).

O primeiro robô que surgiu, o ROSS, nasceu com essas funções, em 2016, aquele que é considerado o primeiro robô advogado do mundo.

Foi justamente em um escritório centenário, o americano Baker & Hosteler, que existe desde 1916, que adotou o ROSS, um robô-plataforma que pesquisa e coleta dados sobre leis e decisões judiciais.

Se notabilizando na área de falências, em que ele trabalha juntamente com mais de 50 advogados do Baker & Hosteler, e na análise e revisão de contratos, sobretudo para atender às demandas que surgiram durante a recente pandemia. Essa certamente é apenas uma atuação embrionária do que ainda iremos ver.

De forma plena, robôs já estão se aproximando de nossas vidas sem nenhum complexo, a ponto de já provocar discussões perfeitamente relevantes e apropriadas: centenas de pesquisadores e especialistas em inteligência artificial, juntamente com figuras como Elon Musk, Stephen Hawking ou Steve Wozniak que estão à frente, assinaram uma carta para instar que a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias militares baseadas na robótica fossem proibidas, na certa com medo de um eventual Exterminador, que sairia das telas para nossa realidade cotidiana.

Podemos assim entender que nossos medos serão mais que justificados?

A economia deixa bem claro, que a chegada dos robôs e o aumento que trarão em termos de produtividade serão a única possibilidade que teremos de financiar muitas dos atuais benefícios, como a previdência. E o desafio é como regrar isso?

É claro que para muitos a substituição do homem pela máquina, seja ela um robô ou software mais parece as trombetas de Jericó lhe avisando que o desemprego bate a porta.

Mas volte ao início do artigo, sobre a ideia de imortalidade e o conceito de insubstituível e pense em algumas profissões que já passaram por isso, e você poderá olhar pra elas com o famoso “Efeito Orloff” Cobradores de ônibus, ascensoristas, operador de mimeógrafo, datilógrafos, digitadores, frentistas de postos em muitos países, uma lista gigante.

Tente imaginar que no Brasil possuímos mais de 1.200.000 advogados, e como eles devem funcionar com a inteligência artificial que pode criar assistentes legais por telefone? Procedimentos judiciais automatizados que demandam menos profissionais. Por um instante imagine

Podemos ir além veja que no Brasil existem cerca de 320.000 contadores registrados, isso mesmo uma cidade quase com o mesmo número de habitantes de Blumenau, e isso falando apenas dos registrados. Onde vai trabalhar todo esse contingente de profissionais com a digitalização plena das contas e registros das empresas? Quando os sistemas automatizados estiverem fazendo o balanço, deixando as guias de recolhimento prontas, registrando e dando baixa nos colaboradores?

A automatização, ou seja, a substituição do homem por máquinas e softwares, tem nesse instante a China como líder, aquele mesmo lugar que mal informados diziam que o diferencial era o preço da mão de obra. Acorda Alice esse mundo que você e seus amigos de grupo atrasado falam já não existe mais.

Pense nos milhões de motoristas de taxi, caminhoneiros, motoristas particulares de frota ou de aplicativos? Isso mesmo, aplicativos, aquele mesmo que oferta aos profissionais desempregados uma das poucas oportunidades de ganho.

Sim pois nesse instante, os veículos autônomos da Waymo já obtiveram a licença para se deslocar sem motoristas e com segurança através do estado da California, nesse primeiro período em testes de calibragem fina e ajustes no preço à ser cobrado.

Lembro que em 2012, a NTHSA dos EUA estimou que 31% dos acidentes fatais no país estavam relacionados ao abuso de álcool, 30% à velocidade excessiva e 21% a distrações. Veículos autônomos nunca beberão, nunca correrão mais do que é seguro e nunca se distrairão, e embora alguns acidentes sejam inevitáveis, estima-se que substituir todos os motoristas humanos por computadores será capaz de reduzir as mortes e ferimentos nas estradas em 90%, um milhão de pessoas por ano.

Para todos esses profissionais o desemprego é uma certeza, restando apenas saber quando?

E o que fazer? A ideia de bloquear ou atrasar a automação para salvaguardar alguns empregos é simplesmente estupidez irresponsável, porque o que precisamos proteger, claramente, são os seres humanos, não seus empregos.

As consequências da automação são inevitáveis e, além disso, não são totalmente ruins. Obviamente, as coisas não são tão simples, pois é essencial trabalhar para encontrar um novo modelo social que não se baseia em horas de trabalho e que, acima de tudo, evita o aumento progressivo e já insustentável da desigualdade.

A disputa não será entre homens e máquinas, mas entre empresas que tem máquinas contra empresas que não tem. Portanto pensar em desestimular a tecnologia, renunciar ao seu desenvolvimento ou legislar para que ela não seja usada é simplesmente perda de tempo, irresponsável e retrógrado, e que vai lhe trazer apenas uma posição mais atrasada diante de um outro colega.

Os dilemas da automação exigem um novo modelo de pensamento: não é ter a tecnologia, mas a visão necessária para adotá-la. Não é um problema tecnológico, é um problema de design de modelo social. E não está claro para mim que temos maturidade para desenvolvê-la.

Pense nos bancos, onde hoje muitos dos gerentes, já foram substituídos por um chatbot, gostemos ou não, será o fim do cafezinho na agência, e logo as agências e todas a sua estrutura será diminuída, por sinal o que já ocorre à passos largo.

Logo é apenas uma questão de tempo para evolução da inteligência artificial que usa seus dados, nem sempre com consentimento nos termos da LGPD, e da evolução de interfaces amigáveis que serão cada dia mais personalizadas de acordo com o grau cultural do cliente, e também considerando as suas características físicas e assim as telas terão letras e cores de acordo com a característica já estudada de cada cliente.

Com isso, ao ligarmos a TV pela manhã o apresentador será um holograma, e a sequência de notícias será personalizada e customizadas de acordo com a nossa política de atenção, logo adeus jornalistas apresentadores.

Estaremos preparados para falar com robôs de forma sistemática e regular? Certamente uns mais outros menos, mas é apenas uma questão de tempo.

Pense nas transações que você realiza regularmente, em mecanismos com os quais você tem familiaridade, seja em sua indústria, ou que você usa em sua vida privada. Agora, tente imaginá-los realizados com a precisão na definição e precisão que um robô permite: como a ideia de ” um robô em sua vida” começa a se tornar mais lógica e simples, existem muitos mecanismos transacionais que consideramos totalmente estabelecidos que, certamente, terão que começar a considerar uma redefinição. Logo, use esse artigo para pensar o seu futuro, o do seu filho e de seus netos, pois o futuro nunca esteve tão presente.

Informações relacionadas

Kizi Roloff Iuris Petições, Advogado
Modeloshá 9 meses

[Modelo] Ação de Execução de Contrato de Honorários Advocatícios

Charles Machado, Advogado
Artigoshá 10 meses

Assédio Recreativo Pode Ser Crime?

Jorge Assis, Advogado
Artigoshá 9 meses

Silêncio de 100 anos, pode isso Arnaldo?

Rafael Rocha Filho, Advogado
Artigoshá 6 meses

O inquilino pode fazer construções e reformas no meu imóvel?

Marconne Celestino, Advogado
Artigoshá 10 meses

Quando é possível anular questões de concurso público na justiça?

11 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Vamos mais longe um pouquinho?... Imaginem robôs construindo novos robôs com inteligência artificial e capacidade física sempre superior a capacidades dos construtores; imagine os robôs consertando os novos robôs e fazendo upgrade nas suas capacidades físicas e intelectuais; imagine os robôs autossuficientes em energia (solar)... homem mortal limitado x robô imortal ilimitado ... putz, seria o apocalipse da raça humana? "Admirável mundo 'velho'". Huxley revira-se no túmulo. Mas ninguém controlaria os robôs? Os espíritos controlariam os robôs e o universo? Os robôs com sua superior intelectualidade acreditariam em Deus? Fala aí, cabeção!!! continuar lendo

Isso mesmo, a singularidade, quando a inteligência artificial nos ultrapassa? Precisamos reinventar muitas profissões e precisamos sim de novas profissões. Quem vai ficar com todo esse ganho de produtividade? E qual o limite entre a eficiência e a solidariedade social? Abraços e obrigado pelos comentários. continuar lendo

Texto muito interessante!

Os avanços tecnológicos são inquestionavelmente importantes, mas eles precisam se dar em benefício das pessoas, não podendo deixá-las às margens da sociedade.

A minha grande preocupação é que no ritmo que as coisas andam a tendência é de que em breve não haja mais espaço para o Ser Humano no mercado de trabalho, pois tudo acabará sendo feito por máquinas.

Isso em um primeiro momento pode parecer bom para os empresários, pois diminui custos e aumenta a capacidade produtiva, permitindo cada vez mais com menos, sem a necessidade da interação humana. Todavia, consequentemente, teremos cada vez mais desempregados, que não servirão para o mercado de trabalho, não possuirão renda e, por isso, sequer poderão consumir.

Não se trata de uma ou outra profissão, mas da grande maioria que acabará sendo extinta (e não substituída por outra), deixando as pessoas sem opção.

Como essas pessoas irão sobreviver? Às custas do governo, ou seja, dos pagadores de impostos? Mas que pagadores de impostos, já que a maioria não terá lugar no mercado de trabalho e não poderá consumir?

A questão é polêmica e merece um amplo debate com a sociedade. continuar lendo

Sem duvida amigo.
O desemprego é inevitável, o que precisamos é saber de que forma acolher essas pessoas e que novas funções podemos ter para realocar esse contingente.
A história da humanidade é sempre a história dos avanços tecnológicos, e da troca de mão do capital pelo domínio da inovação, e agora não está sendo diferente. Pena que estamos perdendo tempo com discussões banais que retiram o foco do que realmente importa. Preparar os brasileiros para os novos desafios inseridos no mundo.
Abraços e obrigado. continuar lendo

A nova lei extingue os chamados contratos de programa, firmados, sem licitação, entre municípios e empresas estaduais de saneamento. Esses acordos, atualmente, são firmados com regras de prestação de tarifação, mas sem concorrência. Com o novo marco legal, abre-se espaço para os contratos de concessão e torna obrigatória a abertura de licitação, podendo, então, concorrer à vaga prestadores de serviço públicos e privados. continuar lendo

Parabéns Dr. Charles pelo brilhante artigo. Em 12/AGO/2021, dados da OAB Nacional não atualizados temos mais de 1.224.000 advogados, fora os estagiários, e todo o pessoal bacharel e outros operadores jurídicos. Tem um autor de nome RICHARD SUSSKING que escreveu o livro THE END OF LAWERS? (O fim dos advogados), que sustenta um cenário muito preocupante. Ao final do seu livre, ele afirma que os advogados NÃO irão terminar mas serão reduzidos em número considerável, para tarefas de menor complexidade, a exemplo na Estônia, já tem computador sentenciando, para processos de menor complexidade. No Brasil a admissão dos processos em tribunais superiores já é feito por inteligência artificial. Enfim isso é um caminho sem volta.

Quanto a advogar tem plataforma chamada EU PROCESSO (www.euprocesso.com.br) que a parte pode fazer o seu processo e ir diretamente ao judiciário SEM a necessidade de um advogado, tudo com o auxílio da inteligência artificial. Existem outras no Brasil e outras ainda virão. Já existem plataformas para contratos, e para negociação para evitar o judiciário. Doravante a vida do advogado será cada dia mais difícil. Quem viver, verá... PARABÉNS pelo artigo, super atual, focado e preciso nas colocações. continuar lendo

maravilha, muito obrigado pela contribuição.
Existe um universo por ser refletido e discutido, e infelizmente essa discussão passa longe das OABs estaduais e nacional. Quando a discussão é rasa a profundidade desaparece na poeira do atraso.
Tanto por discutir e mais ainda por fazer para preparar esse contingente de brasileiros que investiram seu tempo e seu dinheiro em uma formação que vai ser completamente remodelada.
Muito obrigado e uma boa semana. continuar lendo

No livro “Direito Robótico”, de Marco Aurélio de Castro Junior, o conceito de robôs é lembrado pelo escritor Isaac Asimov, que concebeu as leis da robótica, onde robô é um objeto artificial que se parece com um ser humano ou máquinas que exercem certas funções especiais. Um robô é uma máquina computadorizada capaz de realizar tarefas complexas demais para qualquer cérebro vivo, a não ser o do homem. Em outras palavras, os robôs podem ser definidos através da equação: robô = máquina + computador. Essa é a visão clássica de robô, haurida desde a primeira aparição de personagens assim na literatura mundial, em R.U.R. (Rossum’s Universal Robots), do escritor tcheco Karel Capek. Robota significa trabalhador forçado ou escravo, em tcheco. Todavia, o próprio Asimov, na obra acima referida, sugere abandonar o critério da aparência para tratar da função, explicitando que um robô é uma criatura capaz de fazer o que o humano faz, com maior rapidez e eficiência, concluindo que “sendo assim, qualquer máquina ou muitas máquinas poderiam ser definidas como robôs…” continuar lendo

Só sei que tudo que é demais, sobra... continuar lendo