jusbrasil.com.br
28 de Maio de 2022

A Ignorância Odeia a Solidão, Só o Direito e a Distância Nos Salvam

Nas redes sociais em tempos de pandemia a ignorância parece encontrar seu tônico multiplicador, só o Direito para amenizar seus efeitos e a distância para nos proteger.

Charles Machado, Advogado
Publicado por Charles Machado
há 4 meses

Idiotas e ignorantes em redes sociais são como carros sem velocímetros conduzidos por ébrios ladeira abaixo, não importa o que vem pela frente, pois eles acreditam estarem cobertos de razão, de nada adianta olharem para o lado buscando referências para sua velocidade, pois eles estão convictos que estão certos. Quanto aos freios, para que? Se eles acreditam saberem exatamente o que estão fazendo, pois ébrios não tem a menor noção das suas limitações e do risco que a sua imprudência pode causar aos outros e a si.

E isso se repete nas redes sociais, onde é cada dia mais frequente identificar no conteúdo de algumas publicações o que chamamos de efeito Dunning-Kruger, um problema ligado à metacognição, a habilidade do indivíduo em monitorar seus processos cognitivos e identificar suas limitações de conhecimento e compreensão em diversas situações. Nas publicações dos “PHDs” de rede social, esse efeito se manifesta mais comumente nas pessoas como a incapacidade de reconhecer sua própria ignorância, alimentando, assim, uma ilusão de superioridade e conhecimento superestimados. De forma mais direta: quanto mais ignorante em determinado assunto, mais confiante a pessoa pode se sentir ao opinar sobre ele. O efeito leva o nome dos pesquisadores que que foram pioneiros em seu estudo.

É claro que a ignorância, acompanhada da certeza, é um problema pra lá de histórico. Como salientava Leonardo Da Vinci: “A ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento: são os que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que afirmam de uma forma tão categórica que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência.”

David Dunning e Justin Kruger, dois psicólogos da Universidade de Cornell, identificaram um sujeito, McArthur Wheeler, que acreditava ter o poder de ficar invisível ao passar suco de limão no rosto e, confiante na sua habilidade, assaltou dois bancos sem usar máscara alguma. Wheeler, que chegou a piscar para uma das câmeras de segurança em um dos assaltos, foi, claro, facilmente identificado pela polícia após analisarem as imagens. O mais intrigante na atitude de Wheeler é que ele não apresentava sintomas de transtornos psiquiátricos e nem estava sob efeito de entorpecentes; ele realmente acreditava em sua invisibilidade diante das câmeras ao cometer o crime. Tanto ele acreditava nisso que, relataram os policias, Wheeler ficou chocado que seu plano infalível (?) tivesse falhado e lhes teria dito, espantado: “Mas eu usei o suco de limão!” algo que nos remete ao conteúdo publicado em suas redes sociais, e sua cegueira por mitos e preconceitos.

A história pra lá de hilariante, acabou por motivar um estudo de Dunning e Kruger publicado em 1999, em que os pesquisadores investigaram o que leva um indivíduo a sentir-se tão confiante e a superestimar tanto suas habilidades sobre algo, ainda que não tivesse um conhecimento razoável para isso, o que, evidentemente, pode levar a pessoa a um comportamento absolutamente estúpido e ainda ter orgulho disso. A conclusão à que chegaram Dunning e Kruger foi a de que a ignorância gera realmente mais confiança e segurança do que o conhecimento, o que Leonardo Da Vinci, quase 500 anos antes já havia percebido.

A fé cega, que a ignorância gera certamente é patológica, e contamina todos os que estão em volta, seja na família, no trabalho ou nos grupos das redes sociais, afinal aos idiotas nunca lhes falta convicção.

É na lógica comercial da nossa economia de atenção das redes sociais, que mora o perigo da disseminação da ignorância, pois nesse momento o algoritmo se alimenta de praticamente tudo o que é teclado, todo dia, toda hora, todo segundo, no mundo todo, e com mais sensores ligando (microfones, câmeras) outras informações e padrões que são captados por eles.

Logo o barulho gerado pela ignorância e seu séquito de seguidores se alimenta dos seus seguidores, onde por suas crenças ideológicas estarão sempre receptivos a acreditar nas mentiras e invencionices de robôs que geram desinformação nas redes sociais.

Em que pese todo avanço tecnológico, as redes sociais, na distribuição do conteúdo de forma veloz construiu verdadeiros monstros, de acordo com a vontade de quem divulga e compartilha a notícia, que muitas das vezes vem com seu conteúdo editado para dirigir o intérprete para o lado que lhe convém, e assim reproduzimos e replicamos maldades sem fim.

Desnudar mentiras nas redes sociais, é quase sempre uma tarefa árdua para os céticos, que se entregam a pesquisa e ao estudo, algo impossível aos ignorantes que se sentem bem mais confortáveis distante dos livros e dos estudos, encastelados em sua santa ignorância. Pare por alguns minutos e veja nas suas redes sociais, quanto de conteúdo original tem na publicação do atraso, que invariavelmente apenas replica pelo compartilhamento conteúdos de terceiro, invariavelmente desconhecidos do universo acadêmico?

A percepção da produção de barbárie por ouvidos e bocas da ignorância também foi destacada pela letra fina de Nelson Rodrigues “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos…”

A lógica comercial das redes sociais acaba por "empoderar" idiotas, e o desafio da ciência na construção da verdade para derrubar os “falsos mitos” é permanente, extenuante, mas ao mesmo tempo necessário e urgente no enfrentamento da boa luta.

Até lá muita paciência com os adoradores de mentiras, que replicam e que quando enfrentados com a verdade dizem “Eu não sei se é verdade, mas achei importante compartilhar” Cretinos sempre tentam ser simpáticos quando dissimulam sua ignorância.

A liberdade de expressão está assegurada como direito constitucional, porém, sempre um porém, também existe limite para o exercício deste, sendo inadmissível a propagação de certos conteúdos considerados ofensivos ou falsos, podendo acarretar responsabilidades civis e até mesmo configurar crime. O artigo 19 do Decreto nº592/92 que dispõe sobre o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP), anuncia:

“1. ninguém poderá ser molestado por suas opiniões.

2. Toda pessoa terá direito à liberdade de expressão; esse direito incluirá a liberdade de procurar, receber e difundir informações e ideias de qualquer natureza, independentemente de considerações de fronteiras, verbalmente ou por escrito, em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro meio de sua escolha.

3. O exercício do direito previsto no parágrafo 2 do presente artigo implicará deveres e responsabilidades especiais. Consequentemente, poderá estar sujeito a certas restrições, que devem, entretanto, ser expressamente previstas em lei e que se façam necessárias para:

a) assegurar o respeito dos direitos e da reputação das demais pessoas;

b) proteger a segurança nacional, a ordem, a saúde ou a moral públicas”.

O artigo 19, parágrafo 3, prevê a flexibilização da liberdade de expressão diante de outros princípios, não sendo considerado em termos absoluto. No mesmo parágrafo, tem-se a indicação de que as restrições devem estar asseguradas por lei. Assim, o país signatário do PIDCP, o Brasil ratificou-o em 24 de janeiro de 1992, deve assegurar de forma proporcional e necessária tais restrições.

Uma vez que a ignorância, quase sempre é o terreno fértil para proliferação de calúnias e preconceitos, sejam eles religiosos ou raciais.

Algo que precisa ser refletido é que a internet não é mundo sem lei, um lugar em que pode tudo. Muitos fazem perfis fakes ou propagam notícias e informações sem veracidade e se olvidam que podem responder da mesma forma que respondem pelo mesmo crime cometido no mundo físico. Há uma falsa sensação de que a conduta ilícita cometida no âmbito virtual fica à deriva e que nada vai acontecer. Tal pensamento encoraja muitas pessoas a cometerem os mais diversos crimes virtuais.

É evidente que a ignorância cria um considerável prejuízo a sociedade, seja em pequenos ou grandes grupos, e nem sempre vamos escolher o Direito e a sua instrumentalidade para enfrentá-lo, na maioria dos casos o melhor remédio para ignorância, quando encontramos os idiotas convictos (redundância) será a boa e salutar distância, pois se a distância não mata a ignorância ao menos diminui a sua propagação e deixa o idiota sem ar, idiotas odeiam a solidão.

Informações relacionadas

Victoria Guimarães, Advogado
Artigoshá 2 anos

Reflexões sobre Fake News na Pós-Verdade e os papéis sociais.

Murillo Heinrich, Advogado
Artigoshá 2 anos

Pulsões neofascistas na era da pós-verdade

Ana Mendonça Meirelles, Advogado
Artigoshá 4 anos

Pós- verdade e Fake News

Victor Hugo, Advogado
Artigoshá 4 meses

Mitos e Verdades sobre a Prisão em Flagrante

Atualidades Jurídicas, Consultor Jurídico
Artigoshá 4 meses

Atos Administrativos - Quiz de Direito Administrativo

4 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Mas a mídia dita tradicional também alimenta, esta narrativa. Quando afirma categoricamente coisa que outros cientistas renomados os questionam. A ciência foi criada para debater, confrontar e discutir,mas nos últimos anos, parece que só um lado tem razão, o que impede a própria ciência de se desenvolver. Então as redes sociais fazem o papel que a mídia se recusa de fazer, de aceitar ou pelo menos de se questionar. Logo a mídia perde para a internet porque estudiosos estão sendo proibidos de colocarem sua opinião, e assim poder chegar a um consenso. continuar lendo

A mídia, de forma geral e desde tempos remotos da comunicação, tem seus mensageiros de plantão nas manobras políticas e sociais. A internet ampliou o campo dos idiotas úteis para propagar suas suas mensagens cheias de equívocos ideológicos, sem fundamentos até, e recheadas de linguagem que todo tolo gosta. O que não falta é gente para cair nas ciladas dos conteúdos cheios de manipulação. A tecnologia virtual é sustentada por eles para essas suas manobras; São baratos e ágeis. Já fomos influentes ou influenciados aqui; sendo ou não idiotas. Estamos todos sujeitos. continuar lendo

A ignorância pode ser um problema realmente, conforme coloca o autor em sua missiva. Entretanto, a arrogância também é um sério problema. Pois, a atitude arrogante proveniente de uma falsa noção de superioridade (a outra faceta da ignorância) inviabiliza o salutar diálogo, o raciocínio dialético e, por fim, o debate. Em outras palavras, ao adjetivar o outro como ignorante de um assunto, este ato também pode servir como instrumento para não se debruçar sobre determinadas questões pertinentes ao assunto em debate ou não admitir que talvez seja necessário rever determinadas teses. Ou ainda, querer forçar o fim de uma reflexão sem as devidas fundamentações. Deste modo, sejamos cautelosos ao tratarmos da ignorância nosso ou dos outros para não incorrermos nas falácias ad hominem e ad baculum, o que impede o processo de aquisição de conhecimento. continuar lendo

Hoje existe um grupo, liderado por um ex-presidente da República que quer controlar as redes sociais usando este mesmo argumento:

"São idiotas e só falam besteira. Precisam ser censurados"

O interessante que este grupo em anos passados fez o seguinte:

☺ Despejou dezenas de bilhões de dólares em países amigos e este rico dinheirinho não volta mais.
☻ Uma idiotice não é mesmo?

☺ Comprou uma refinaria que estava totalmente podre por um preço muitas, mas muitas vezes superior ao mercado ao invés de investir em projetos rentáveis no país. Prejuízo.
☻ Uma idiotice não é mesmo?

☺ Torrou R$ 7 bilhões de reais do fundo de pensão dos funcionários dos Correios em um título podre na Venezuela (sim neste país) e os honestos funcionários da estatal ficaram com o prejuízo.
☻Uma idiotice não é mesmo?

Vamos imaginar que alguns idiotas nos tempos destas idiotices falassem dos prejuízos em suas redes sociais.

__________________________________________________________

Deveriam eles serem censurados já que o direito à opinião não é absoluto?
__________________________________________________________ continuar lendo